
Eu gosto do vento. Um dia ouvi dizer que quando as pessoas morrem, os espíritos se separam dos corpos e que, para estarem mais perto dos que faziam parte das suas vidas, se transformam em vento. O vento muda quando os espíritos mudam.
No Inverno, os espíritos não se querem molhar; é por isso que os ventos sopram com força, eles vão a correr muito, muito depressa para arranjar um abrigo. Na Primavera, ainda andam depressa porque ainda está frio, mas já não correm; precisam de tempo para ver e cheirar as flores e comentar os novos casais (talvez um dos sortudos sejam um familiar de um desses espíritos!). No Verão, com a melhoria do tempo, os espíritos andam mais devagar, fazem caminhadas, aproveitam para fazer umas festas e dar uns abraços àqueles de quem sentem falta. A brisa de Verão, fresca de noite, vem aconchegar e lembrar que eles nunca nos deixam; umas vezes até podem estar mais apressados, mas voltam sempre, com mais tempo, para nos ouvirem e nos falarem. No Outono, parecemos andar mais ocupados e tristes: voltou a rotina. Então, nesta altura do ano, os espíritos precisam de nos chamar a atenção, de nos lembrar que estão ali ao nosso lado. É para isso que serve uma rajada mais forte ou uma folha que acabou de cair colada à nossa testa. E com as folhas, ao colocá-las bem em frente aos nossos olhos, mostram-nos que, mesmo sem tempo para eles nem para nada, temos de saber quando parar, quando largar tudo e ter um bocadinho para nós, para apreciar as pequenas bonanças que existem no meio das tempestades.
Eles nunca nos deixam... Apenas ficam à espera que chegue a nossa hora de ir ter com eles. Sempre que olho para o céu e vejo estrelas, é como se pudesse olhar para o meu avô como antes. E sei que ele me olha de volta, me ouve e me protege. E sempre que sinto uma brisa, sinto-o de novo ao meu lado, a dar-me um abraço e um beijo na testa e a dizer-me ao ouvido que gosta de mim e que nunca me irá deixar. É por isso que eu gosto tanto do vento.
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